O HAIBUN

HAIBUN, UMA BREVE INTRODUÇÃO.

por George Goldberg

O Haibun (俳文) é um termo que une os ideogramas Hai (俳) de poesia Haikai, e Bun (文) utilizado e associado às artes da escrita. De forma simplista então, poderíamos afirmar que esta é uma forma literária que combina prosa e poesia haikai, mas, este gênero originado no Japão é bem mais profundo e multifacetado.

Mestre Matsuo Bashō (松尾 芭蕉, 1644 – 28 novembro, 1694) um dos mais tradicionais e renomados poetas japoneses, nasceu Matsuo Kinsaku (松尾 金作) em algum lugar perto de Ueno na província de Iga. Relatos históricos nos revelam de forma precisa, que foi no final do século XVII, em 1690, que Bashō faz referência pela primeira vez ao termo haibun, em uma carta para seu amigo e discípulo Mukai Kyorai (向井 去来,1651-1704).

Bashō era um estudioso, amante da literatura chinesa e grande admirador de Du Fu (杜甫, 712-770), poeta e político chinês da dinastia Tang (618-906), considerado um dos maiores poetas de seu tempo. O pioneirismo de Bashō se deu, ao mesclar à escrita clássica, alguns gêneros da prosa chinesa que tanto admirava, aos assuntos corriqueiros de sua vida, utilizando uma linguagem mais vernacular, e inserindo os conceitos e fundamentos já utilizados no haikai (na época ainda chamado de hokku) que ele praticava.

Oku no Hosomichi, (おくのほそ道 -1689), traduzida como, Estrada estreita para os confins do Norte, obra com os relatos de uma das mais famosas jornadas de Bashō, tornou-se um de seus trabalhos mais famosos e traduzidos em todo o mundo, e que ocorre cronologicamente em 1689, mas só é publicada postumamente em 1702, sendo considerada uma das principais obras literárias japonesas do período Edo (Edo Bakufu), que ao amalgamar prosa e haikai em um estilo de diário de viagem, tornou-se extremamente popular. Esta é apenas uma de suas várias obras que inspiraram, e ainda inspiram, inúmeras pessoas a seguir os seus passos, e traçarem suas próprias jornadas poéticas pelo mundo. E com sua famosa frase, “cada dia é uma jornada, e a própria jornada para casa”, ele constrói um legado que possui discípulos até os dias atuais.

Muitos haibuns mais curtos de Bashō possuem composições que dão foco em cenários e paisagens bucólicas, esboços de personagens pitorescos, recortes às vezes com um ar de humor, e relatos ocasionais para homenagear pessoas, lugares ou eventos específicos.

Sua famosa obra intitulada, Genjū-an no Ki (幻住庵記), costumeiramente traduzida como, A Cabana da Morada Fantasma, Cabana do Eremitério Fantasma, Registros do Eremitério Fantasma, ou ainda Registros da Cabana Genjū-an, foi na verdade uma carta, na qual relata ao discípulo e amigo Kyorai, o período em que vivia em uma colina na margem sul do Lago Biwa, a leste de Kyoto,  algum tempo depois de ter retornado de sua jornada que deu origem ao já citado, Oku no Hosomichi.

Por lá ele passou alguns meses, e neste relato, feito em Genjū-an no Ki, deixa claro a  influência que as artes chinesas exerciam em sua obra, o momento de desapego e a necessidade de afastamento das coisas mundanas, talvez, tentando tardiamente resgatar uma vida monástica que não acolheu oficialmente quando teve oportunidade, além das reflexões quanto a significância de seu trabalho com a poesia, e do tempo de vida dedicado a ele. Esta obra tornou-se uma peça profunda e evocativa que que há séculos influencia poetas de todos os cantos do mundo

Importante lembrar que, no período Edo, os diários de viagem eram extremamente populares, e utilizados tanto como registros de viagens comerciais e turísticas, quanto em trabalhos autobiográficos. Uma antiga herança chinesa, solidamente assimilada pela cultura japonesa.     

Alguns estudiosos classificam Genjū-an no Ki como um ensaio, com ares de diário de viagem (kikōbun,紀行文), o que não a desqualifica como haibun, pois além de ser um tipo de prosa adotado por Bashō em seus relatos, foi durante a escrita desta obra, que provavelmente, como os registros revelam, surgiu a inspiração para nomear este estilo de escrita como haibun, talvez até mesmo, para tentar diferenciar sua forma de escrita, do tradicional  kikōbun, e assim, ter liberdade para trazer os preceitos da poesia haikai para seus trabalhos em prosa, caracterizando o haibun pelo senso estético do haikai que praticava, e do mono no aware,  aplicado por ele em suas obras, atrelando assim o haibun definitivamente ao haikai, fazendo dele agora, parte do caminho do haikai, ou haikai-dō.

É importante ressaltar que, a utilização de poesia entremeada à prosa, não foi uma criação de Bashō. No Japão, segundo os documentos conhecidos até hoje nos revelam, a pratica literária de escrever prosa e poesia juntos remonta ao século VII, com a obra, (Man’ yōshū, 万葉集), traduzida como, “Coleção de Dez Mil Folhas“, que é inclusive citada por Bashō em, Genjū-an no Ki, e é considerada a mais antiga coleção existente de waka (和歌) japonês, e a primeira grande antologia de poesia japonesa contendo prosa e poesia waka juntos.  Compilada algum tempo depois de 759 durante o período Nara (Nara Jidai 710–794),  com a maior parte de sua coleção representando o período entre 600 e 759, possui mais de 4500 poemas waka, divididos em 20 livros, e tem como compilador, ou o último de uma série de compiladores, Ōtomo no Yakamochi, (大伴 家持, 718 – 785), embora inúmeras outras teorias tenham sido propostas quanto a este assunto ao longo do tempo.

Na literatura de outros países, a utilização de poesia mesclada a prosa também é comum, tendo registros milenares, como a obra indiana (Chapu-Kavya) do período Védico (1500 a.C. – 500 a.C.), com seus episódios em prosa chamados, Gadya-Kavya, e suas passagens poéticas, Padya-Kavya, com versos intercalados na prosa.

Outra longa obra também famosa de Bashō, “Saga Nikki (嵯峨日記 1691)”, (Diário de Saga), documenta suas atividades diárias com seus discípulos durante um retiro de verão, seguindo a forma de um diário de viagens, mas com uma prosa também repleta de sabor de haikai, no seu estilo haibun.

Ao largo da história, os haibuns tradicionais costumeiramente assumiam a forma de uma descrição curta de um lugar, pessoa ou objeto, ou em textos um pouco mais longos, como diários de uma jornada, ou séries de eventos da vida do poeta. Normalmente, são terminados com um haikai. Uma boa parte da produção histórica que encontramos é bastante variada, onde podemos encontrar algumasnobras que possuem menos de cem palavras, outras alcançando duzentas ou trezentas, e até mesmo além disso, como é o caso de Genjū-an no Ki. Nestes haibuns um pouco mais extensos, também é comum presenciarmos mais de um haikai, que por vezes, se apresentam intercalados entre dois ou mais parágrafos das seções da prosa.

A conexão entre o haikai e a prosa costumeiramente não são óbvias, na qual o poema está imerso na prosa, dando-lhe maior profundidade significativa e poética, inclusive podendo ainda, redirecionar e ressignificar tudo o que já havia sido exposto, criando novas sensações, surpresas, angústias, estupefações, deslumbramentos.

Historicamente, é fácil perceber que o haibun japonês se desenvolveu dentro da prática de inserção de pequenas notas introdutórias, que abriam caminho para um haikai que havia sido colhido previamente. Talvez, daí tenha surgido o propagado mito que haibuns deveriam ser sempre extremamente curtos, mas, o legado de Bashō logo se tornou um gênero distinto e consagrado, com uma prosa enriquecida pela realidade que era colhida pelo autor, e que agregou além do estilo da prosa poética chinesa e japonesa, também todos os conceitos básicos e avançados já utilizados na produção dos haikais. Diferindo assim, o haibun, baseado no aqui e agora, de estilos poéticos que se assemelhavam a este, mas, se utilizavam habitualmente, de elucubrações fictícias, e ou mitológicas para enriquecer suas prosas, que são por vezes confundidos como sendo haibuns.

O legado de Bashō, continua após seu falecimento no fim de 1694. Alunos e simpatizantes da fórmula poética que ele intitulou como haibun deram continuidade a prática deste novo gênero, que começou a “fazer escola” no Japão. Com a popularidade, inúmeras obras seguindo a linhagem de Bashō começaram a surgir, e em 1706, o samurai e exímio calígrafo do clã Hikone, Morikawa Kyoriku (Kyoroku), (森川許六, 1656-1715 ), reconhecido por ser um dos dez melhores alunos de Bashō, organizou e publicou Honchō Monzen (“Antologia em Prosa do Japão”), que mais tarde foi denominada de Fūzoku Monzen (“Antologia de Costumes e Maneiras”), sendo hoje considerada por estudiosos como a primeira antologia de haibuns, (haibunlogia), que seguia os mesmos preceitos praticados por Bashō.

O refinamento e profundidade poética proporcionados pelo haibun, atraíram posteriormente nomes famosos como Yosa Buson (与謝蕪,1716-1783), Kobayashi Issa (小林一茶, 1763–1827) e Masaoka Shiki (正岡 子規, 1867–1902), consagrando assim o haibun como um gênero significativo na literatura mundial.

Relembrando o que vimos até aqui, o haibun é uma forma literária prosimétrica pois combina prosa e poesia, neste caso, o haikai. Sua abrangência é ampla e frequentemente inclui ensaio, poema em prosa, o conto baseado em fatos, diário, autobiografia, e diário de viagem. Nos últimos tempos, com a disseminação mundial do gênero, o estilo de Bashō, ganhou novos olhares em todo o mundo. Além do Japão, a relação direta e sutil entre a prosa e o haikai, fez o haibun cativar adeptos em inúmeros idiomas, tendo em vista que ele emigrou na bagagem dos japoneses, lado a lado com o haikai.

Hoje, existem agremiações e sociedades dedicadas a estilos específicos de haibun, a exemplo do popular haibun narrativo de reportagem. Temos ainda outros exemplos de diários de viagem, kikōbun (紀行文), como o escrito por David Cobb, fundador da British Haiku Society, que escreveu a obra “Spring Journey to the Saxon Shore“, um haibun premiado, de 5000 palavras, que tem sido considerado essencial para a produção literária deste gênero, sendo hoje comum em países de língua inglesa, concursos que aceitam haibuns sem limite, ou em torno de 1500 a 2000 palavras, quando se é necessário limitar a extensão do texto, para a agilizar e facilitar o trabalho das comissões julgadoras.

Antes de encerrar, gostaria de acrescentar alguns pontos que considero relevantes ao gênero haibun introduzido por mestre Bashō, são eles:

1 – Semelhante ao haikai, o haibun costuma possuir duas partes, dois momentos que permeiam juntos o texto, e se completam em sentido no próprio texto, ou até mesmo nos haikais utilizados na composição.

2 – É importante lembrar que a prosa do haibun tem sua origem no termo sazonal, o kigō (季語), herdando este conceito do haikai. Por isso, tudo que orbita este termo na vivência colhida pelo poeta, pode se tornar parte do haibun. Mas, devemos evitar ultrapassar o essencial.

3 – Para o gênero haibun o momento presente é fundamental, mesmo que este aconteça na mente do autor enquanto algo resgata suas memórias, a prosa acontece no aqui e agora, na qual o autor está presente e consciente de sua presença.

4 – O haibun, da mesma forma que o haikai, é imagético, ou seja, ela retrata o que se vê ou que se vive, interna ou externamente, mas está de alguma forma, diante do autor, junto com todas suas consequências.

5 – O haibun nasceu e se desenvolveu como obra acessível e popular. A erudição traz peso tanto para o haikai, quanto para a prosa, por isso, o haibun é leve, sutil, sugestivo, suave.

6 – O haibun é sobre o real, a interação do humano com a natureza do mundo e a natureza das coisas. É sobre o aqui e agora, mesmo que este aconteça na mente, dentro de vagas memórias, ou epifanias.

7 – Vale lembrar que a prosa do haibun é além de suave, também lúdica, por vezes enigmática, ou com ares de mistério. Humor e ironia também não são banidos deste gênero, mas neste caso, é preciso bom senso para que não adquira ares panfletários ou desagradáveis.

8 – Mesmo que o “Eu” esteja presente, o autor torna-se um coadjuvante, inserido no meio, presente no ato do fato, experienciando tudo que o momento oferece. 

9 – A sensibilidade é uma característica do haibun, o haimi, que pessoalmente apelidei de “efeito uau” utilizado em um haikai, também pode ser aplicado à prosa do haibun. Este sabor de haikai presente nos poemas, também é bem-vindo se estiver presente na prosa, criando assim um, “Sabor de haibun”. O premiado e notório escritor japonês Natsume Soseki, e o Cineasta e multiartista Hayao Miyazaki, são exemplos da utilização dos conceitos desta técnica e estética em seus trabalhos, gerando um “je ne sais quoi”, aquele algo mais que não se consegue descrever, mas percebemos que ali existe algo especial, e desta forma, eles conseguem manter com maestria estes sabores poéticos do haimi em romances, mangás e obras cinematográficas.

10 – Ainda na adolescência, um de meus mestres me disse que o haibun precisa ser “inacabado”, ter um ar de incompletude, que se completa dentro da mente de quem lê o poema. O haibun costuma trazer aquela sensação que temos quando começamos a ouvir uma conversa pelo meio, e precisamos sair antes de escutar o final. Nunca termine a história, deixe isso a cargo de quem irá ler suas vivências. Deixe-o participar.

11 – As técnicas de composição do haikai são permitidas e saudáveis ao haibun. A utilização do Makoto, que podemos entender como “verdade fundamental” ou “a verdade presente em todas as coisas”, era muito utilizada em incentivada por Bashō no haikai, e também incentivada no haibun.

O Sabi, que está ligado a solidão e a solitude, e que também nos revela a impermanência de todas as coisas e nossa relação nesta transitoriedade, é outra técnica à qual devemos dar atenção nas composições.

Wabi é outra técnica importante, que permite de maneira minimalista, a perfeita integração do ser humano
com o meio no qual está inserido. Às vezes de forma simplista, é referenciado como, o saborear da pobreza, mas na verdade, ultrapassa em muito esta definição, estando mais profundamente ligado ao ato de compreender que os excessos contribuem para o desenvolvimento de uma mente centrada no ego. Isto posto, o wabi nos revela o conhecimento prático, que ao vivermos apenas com o necessário e essencial, nos afastamos do sofrimento do apego, e passamos a apreciar o que temos, sem ansiarmos o supérfluo e fútil.

Já o Wabi-sabi, une os dois conceitos, criando uma forma de pensar e agir, na qual aceitamos a impermanência, e compreendemos que não existe perfeição, nem completude, tudo perece e se transforma, nada é eterno. As vezes comparado ao fatalismo, melancolia ou tristeza, mas que está muito além disso, revelando um universo mutável, no qual tudo está em constante transformação interna e externa.

Temos ainda o Yūgen, que tem origem na cultura filosófica chinesa, senda esta a expressão do reconhecimento do insondável, aquilo que é invisível aos olhos, mas sentimos com nossa alma. Comparado a um mistério, no sentido de algo oculto, não revelado, mas que sabemos que existe, mas não conseguimos tocar com nosso corpo material, apenas conseguimos intuir, e apreciar com nossa mente, sem verbalizações. O Yūgen não está limitado ao haikai ou ao haibun, mas é um conceito que permeia as artes chinesas e japonesas, evidenciando a capacidade do autor de tornar implícito seu encantamento com a admirável finitude das coisas, e os mistérios profundos da beleza do universo do qual somos parte.

A técnica do Karumi, pode ser compreendida como leveza, talvez uma leveza de certa forma mais singela, que quando bem aplicada tanto no haikai, quanto na prosa, nos revela um minimalismo que evoca desapego, humildade e simplicidade.  

Já o conceito do Shajitsu, é a capacidade de aplicar uma descrição objetiva e fidedigna de tudo que percebemos com nossos sentidos, evidenciando a realidade pura e simples, permitindo ao leitor, saborear o momento e inserir nele, suas próprias percepções.

Estes conceitos e técnicas não são os únicos utilizados na composição de haikais e haibuns, mas acredito, que esta breve introdução estimulará àqueles que desejem se aprofundar na arte do haibun e do haikai, a continuar estudando este fascinante universo poético.

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Nos vemos por lá.

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